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Morreu Zé Pedro, guitarrista dos Xutos & Pontapés e figura lendária do rock português, avançou a revista “Blitz” e confirmou a manager da banda.

Zé Pedro tinha 61 anos e faleceu esta quinta-feira em casa, vítima de doença prolongada.

“O nosso Zé Pedro deixou-nos hoje. Partiu em paz”, refere um comunicado da manager da banda.

O velório do guitarrista dos Xutos & Pontapés realiza-se a partir das 16h00 de sexta-feira, no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, onde, no sábado, é celebrada missa de corpo presente, pelas 14h00, adianta fonte próxima da família. O funeral e a cerimónia de cremação, que se realizam em seguida, são reservados à família.

Zé Pedro foi um dos fundadores dos Xutos, banda que começou por se chamar Delirium Tremens. Tinha 22 anos.

O primeiro ensaio aconteceu em Dezembro de 1978, na Senófila, em Lisboa, e o primeiro concerto realizou-se em 13 de Janeiro do ano seguinte, nos Alunos de Apolo, em Lisboa.

Ao longo de várias décadas, 13 álbuns de estúdio e deu milhares de concertos com os seus companheiros Tim, Kalú, João Cabeleira, Zé Leonel e Gui.

O músico fez parte de projectos como Maduros, Ladrões do Tempo e Palma’s Gangs, este último com Jorge Palma.

Foi também um dos sócios do Johnny Guitar, emblemático bar e sala de espectáculos de Lisboa.

O último concerto de Zé Pedro com a sua banda de sempre aconteceu no início do mês, no Coliseu dos Recreios. No final, o guitarrista recebeu uma onda de carinho do público.

“Não sinto rancor com o meu passado. Vivi o que vivi”

O estado de saúde de Zé Pedro deteriorou-se nos últimos meses depois de, em 2011, o guitarristas ter sido submetido a um transplante de fígado.

“Foi em 2001. Parei os consumos todos: de álcool, drogas e tabaco. Foi um ano terrível de confusão, de consumos, de não ter saída. Às vezes lembro-me de um turbilhão de coisas que me passava pela cabeça. Tem de ter um fim. Não vou aguentar muito mais. Houve uma hemorragia enorme e eles quase me deram como morto. Mas eu tive a certeza que ia sobreviver. O Eduardo Barroso disse que o fígado nem para um patê dava”, contou em entrevista ao jornal “Expresso”.

Noutra conversa com o portal Sapo, Zé Pedro admite que passou muitas linhas vermelhas. “Abusei muito. Foi a fase do sexo, droga e rock n’ roll. Aproveitei bem este lema e acabei por pagar a factura da pior maneira. Não sinto rancor com o meu passado. Vivi o que vivi. Claro que temos de assumir as consequências dos nossos actos, assumir as responsabilidades”.

O guitarrista fã de Rolling Stones deixou também conselhos às novas gerações: “Os jovens devem ter uma personalidade cada vez mais forte para dizer não às tentações e não se deixarem levar pelo princípio de que se tem de experimentar tudo na vida. Isso não é verdade. Há que saber selecionar os amigos e as atividades que nos fazem bem”.

 

“O rock n’roll é um estado de espírito”

O homem do leme dos Xutos & Pontapés, que passou parte da infância em Timor, é uma das figuras mais carismáticas da música portuguesa das últimas décadas.

Zé Pedro era viciado em música. Dizia que “o rock n’roll é um estado de espírito, e uma pessoa ou sente ou não sente”.

“Não é preciso ser músico para se sentir, tem que ver com aventura. Pode ter que ver com uns certos limites na vida, mas tem, acima de tudo, que ver com a realização pessoal de uma vida mexida”, afirmou ao “Diário de Notícias”.

Fora dos palcos, Zé Pedro desdobrava-se noutros projectos, como a rádio, tendo colaborado com Jaime Fernandes e Luís Filipe Barros na Rádio Comercial, com Henrique Amaro, na Rádio Energia, com Miguel Quintão na Vox ou, mais recentemente, na Rádio Radar.

Pioneiro do punk

Zé Pedro foi um dos pioneiros do punk em Portugal, o que acabou por influenciar o estilo e a atitude dos Xutos & Pontapés.

A descoberta do punk aconteceu em 1976, durante um InterRail pela Europa que teve como ponto alto o festival de Mont-de-Marsan, em França.

“Ainda não havia internet nem redes sociais, a informação demorava a chegar. Havia zunzuns sobre o punk rock, o movimento cultural que abrangia, mas eu não tinha visto ‘in loco’. Foi uma oportunidade de ouro e, sem dúvida nenhuma, posso dizer que mudou a minha vida. Estive no meio de, não li no jornal. Vi as tribos, como se movimentavam, as bandas, os fãs de uns e de outros, os confrontos entre eles. Captei a atitude desse movimento no terreno”, contou ao DN.

Para o guitarrista, que não largava a sua Gibson, “o punk rock mudou tudo: a moda, a maneira de fazer cinema, a atitude das pessoas perante a cultura”.

“Socialmente, a Inglaterra estava num impasse, a juventude queria fazer alguma coisa mas os canais estavam entupidos: não havia emprego, a Margaret Thatcher estava politicamente a impedir a ascensão de uma nova cultura e, com o punk rock, aquilo explodiu. E rebentou para o mundo inteiro.”

Zé Pedro lembra que nesse festival francês teve oportunidade de ver os “extraordinários” The Clash, mas também os Police ou os The Damned, bandas que o influenciaram, além dos Sex Pistols.

De regresso a Lisboa, mergulhado na estética punk rock, conheceu o músico Pedro Ayres Magalhães, então dos Faíscas, do qual se torna ‘manager’ oficial.

 

A infância em Timor

José Pedro Amaro dos Santos Reis nasceu em Lisboa, em 14 de Setembro de 1956, numa família de sete irmãos, “com um pai militar, não autoritário, e uma mãe militante-dos-valores-familiares”, como recordou num dos capítulos da biografia “Não sou o único” (2007), escrita pela irmã, Helena Reis.
A relação com a música vem desde novo, por influência do pai, e uma das memórias é uma ida ao festival Cascais Jazz, na adolescência.

Devido à profissão do pai, o fundador dos Xutos viveu quatro anos em Timor durante a sua infância.

“Arranquei para lá em 1960, com 4 anos, e voltei passados outros quatro. Acabei por me dedicar muito a explorar coisas. As minhas experiências passavam por andar atrás de bichos, a tentar encontrar cobras e lagartos, e por divertir-me na caserna com os magalas. Como era filho do senhor capitão, lá me tratavam bem. Mas foi muito produtivo: não só os quatro anos que passei lá, como a saída, a viagem de barco”, recorda em entrevista ao “Blitz”.

“Tenho ideia de, com sete anos de idade, ver pela primeira vez uma cidade, coisa que em Timor não havia. Díli era uma aldeiazeca quando o barco parou perto de Hong Kong, para mim foi uma descoberta brutal. Não só da cidade e dos prédios nunca mais me esqueço que foi, também, a primeira vez que vi luz [eléctrica] na vida. Só tinha visto umas lamparinas… Agora aqueles anúncios da Kodak e da Fuji! Lembro-me de fazer uma directa no barco, que ficou ao largo, a bater com a cabeça na janela e tudo.”

Regressou a Portugal e mudou a história da música portuguesa. Em 2004, quando os Xutos & Pontapés celebraram 25 anos de carreira, os cinco músicos da banda – Tim, Zé Pedro, Kalú, João Cabeleira e Gui – foram agraciados pelo então presidente da República Jorge Sampaio com o grau de comendador da Ordem de Mérito, por “serviços meritórios” prestados ao país.

Depois do transplante de fígado, em 2011, Zé Pedro acalmou e mudou o seu estilo de vida. Nessa altura, assumiu ao “Expresso” que era “uma estrela do rock”, com orgulho, mas sem “uma vaidade exagerada”.

Depois de ultrapassar o problema grave de saúde, o guitarrista disse estar agradecido pela vida que teve: “Enquanto se cá está, tem que se estar a fazer coisas e, se tens a oportunidade de as fazer, não se pode desperdiçar. Felizmente, não sou nada nostálgico. As coisas foram vividas na altura certa e o que foi não volta a ser”.

 

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